DEPOIMENTO | Paula Bajer, autora de Feliz aniversário, Sílvia

Paula Bajer, 56 anos, é formada em direito pela Universidade de São Paulo (USP) e, antes de se aventurar pela literatura de ficção, publicou dois livros na área jurídica. O romance policial não foi sua primeira linha de criação. Sua primeira obra, “Viagem sentimental ao Japão” fala sobre o medo e o desejo de viajar. Paula escreve “desde sempre”. Com mais precisão: Paula escreve “desde que aprendeu a desenhar o próprio nome com a avó”. Em 2008, quando decidiu se arriscar a escrever ficção, fez cursos para aperfeiçoar seu estilo e descobriu que a prática da escrita é muito sobre aprender a ouvir. “Feliz Aniversário, Sílvia” é uma obra em que Paula Bajer decidiu apresentar duas personagens femininas fortes e em que a própria protagonista carrega muitos traços da própria autora.

Relato

Tenho 56 anos, nasci em 62. Fiz faculdade de Direito na USP, formei-me em 85, pouco tempo antes da Constituição de 88. Eu queria fazer jornalismo porque sempre admirei o trabalho da imprensa para a democratização do país e eu gostava de escrever, sempre gostei. Mas depois concluí que estudando Direito eu também poderia contribuir, principalmente porque via o trabalho de meus pais, os dois da área jurídica, pela liberdade. Minha mãe era professora de Direito Penal e meu pai é advogado criminal.

Eu sempre escrevi, desde que aprendi a desenhar meu próprio nome com a minha avó. Era o que eu queria fazer, ser escritora de ficção ou jornalista, ou os dois. Cursei Direito e fiz mestrado e doutorado em processo penal e publiquei dois livros na área jurídica, depois um que explica direito processual penal para pessoas que não estudaram direito, chamado “Processo Penal e Cidadania”, publicado pela Zahar, é um dos volumes da coleção Descobrindo o Brasil. Agora esse livro está esgotado e eu o atualizei e está publicado em e-book, pela e-galaxia, sob o título “Punição e Liberdade no Brasil”. Está em todas as plataformas.

A partir de 2008, mais ou menos, decidi que era o momento de eu me escrever ficção. Criei meu blog, lolitaimaginario.com, e comecei a fazer cursos de escrita, o principal deles com Marcelino Freire e Luiz Bras/Nelson de Oliveira.  Fiz vários outros cursos depois, o último deles com Cadão Volpato, jornalista e escritor. Eu acho que os cursos treinam talvez mais o ouvido do que a escrita, porque, ouvindo seus próprios textos na sua voz ou na de outros, você compreende melhor seu próprio caminho e encontra sua voz.

Meu primeiro romance, “Viagem sentimental ao Japão”, não é policial, é sobre o desejo e o medo de viajar. Foi publicado em 2013 pela Editora Apicuri. Mas, ali, já se vê a personagem, Anette, envolvida em uma trama de suspense que não é a principal do enredo, mas mostra que o medo e o sentimento de perseguição aparecem em muitos momentos da vida.

É isso o que me atrai na escrita de ficção policial: o suspense, a dúvida sobre o futuro, o sentimento horrível de se ver em uma situação muito complicada da qual é difícil sair. Os romances de Haruki Murakami não são propriamente policiais, mas eles mostram esse perigo invisível da realidade. Tudo está bem, mas pode não estar, é isso que me atrai nos romances policiais.

Em “Nove tiros em Chef Lidu”, publicado pela Circuito e que também está nas plataformas digitais pela e-galáxia,  trabalhei mais com o jogo entre a narrativa jurídica dos inquéritos policiais, a narrativa jornalística e a realidade. Esse jogo de linguagens também me atrai e veio de meus estudos em direito processual penal.

Em “Feliz anivesrário, Sílvia” (Editora Patuá), inseri um outro tipo de conflito: o da amizade entre as mulheres, como funciona e qual a influência nas nossas vidas. Há muito a compreender no conflito entre Sílvia e Sabina: confiança, admiração, lealdade, decepção, ciúmes. E ainda um complicador: a aparência.

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Paula Bajer. Foto: Acervo Pessoal

Sílvia escreve um diário sobre suas tentativas para perder peso, que Sabina não consegue entender, pois é muito magra. Mas, por outro lado, Sabina se esconde sob um pseudônimo ao escrever romances que fazem muito sucesso. Também ela tem problemas de identidade, não relacionados ao corpo, como são os de Sílvia. Não se sabe se Sílvia é gorda ou não, talvez nem tanto, mas ela se sente gorda, e é isso o que importa na história.

Eu gosto muito desse romance que é de fácil leitura, mas tem um texto oculto poderoso. É disso que eu mais gosto nele. É um texto oculto que pode ser preenchido pela leitora e pelo leitor, eu sempre acho que as pessoas que leem  completam o livro, reescrevendo-o pela interpretação.

Sou membro de um coletivo de escrita, o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, formado por mulheres escritoras, coordenado por Regina Junqueira. Já publicamos vários livros e fanzines juntas. Na literatura policial brasileira, gosto de Rubem Fonseca, Marçal Aquino, Tony Belloto. Foi os que conheci primeiro. Gosto muito agora dos romances de Cláudia Lemes, Cristiane Krumenauer, Vera  Carvalho Assumpção, Viviane Gebber. Elas estão iniciando um percurso novo na literatura policial brasileira, não têm medo de mergulhar no desconhecido das pessoas e nas aventuras possíveis e impossíveis, dolorosas. Divulgo meu trabalho no instagram e no facebook, nos meus blogues, lolitaimaginario.com e cheflidu.com, entre meus amigos, entre os autores da Editora Patuá, que publicou “Feliz aniversário, Sílvia” e vai publicar meu próximo livro de contos, “Um enterro para Suzana”, agora no fim de fevereiro. Procuro acompanhar os debates literários. No Martelinho de Outro (nosso coletivo) distribuímos gratuitamente nossos  fanzines (Balada Literária e na Flip, agora em 2019) e eu mesma já produzi dois fanzines que distribuí em eventos, para conhecidos e amigos. Participei do Porto Alegre Noir em 2018 e pretendo ir ao de 2019.

Decidi enviar “Feliz aniversário, Sílvia”, para o Festival porque achei a ideia ótima e seria uma tentativa de mostrar o livro para mais pessoas. Vi a notícia na página da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror, da qual participo. A ABERST está fazendo um trabalho muito bacana para divulgar o suspense no Brasil. Sílvia surgiu algumas caracerísticas minhas, mas  envolvida em um contexto do qual não faço parte. Como eu seria se não fosse eu? Ela existe faz muito tempo, está em outros esboços de romances, já quis fazer uma série com ela, tentei inclusive um roteiro. É uma advogada que batalha pra continuar sendo uma pessoa simples, pra não se envolver em muita confusão, ela acredita na justiça. Ela tem essa experiência com peso e dietas para emagrecer que eu e outras tantas mulheres também temos. Quis falar sobre isso e na época era mais ou menos um tabu essa assunto. Hoje não é tanto, muita gente está escrevendo sobre isso. Mas aí  também fiquei interessada em falar sobre o mundo feminino, sobre dominação masculina, que existe, mas, ao mesmo tempo, as mulheres tambéms abem dominar. O romance não tem uma bandeira feminista assumida, não acho que a gente deva escrever pensando em convencer. Mas algumas pessoas podem se identificar com os conflitos de identidade de Sílvia e Sabina, eu sempre me interesso por eles, todos os meus personagens têm dificuldades para se adaptar aos contextos reais, mesmos os masculinos. Nesse livro as protagonistas são mulheres, mas também curto os personagens masculinos. Elvis, em “Nove tiros em Chef Lidu”, é um personagem bacana, assim como o Dr. Magreza, delegado.

Quero ainda contar que “Um enterro para Suzana”, livro de contos, será publicado agora pela Editora Patuá. Tenho gostado muito de publicar pela Patuá, que já publicou também livros do nosso Coletivo Literário Martelinho de Ouro.  Muitos contos desse novo livro são policiais, outros não. Estou gostando bastante de concretizar esse novo projeto.

 

LEIA TAMBÉM
>> FELIZ ANIVERSÁRIO, SÍLVIA, de Paula Bajer

 

Para conhecer o trabalho de Paula, acesse os endereços virtuais da autora
Facebook: facebook.com/paula.bajerfernandes
Instagram: Instagram.com/paula_bajer
Blogues: 
lolitaimaginario.com e cheflidu.com

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3 comentários sobre “DEPOIMENTO | Paula Bajer, autora de Feliz aniversário, Sílvia

  1. Paula, adorei seu depoimento. Nós, mulheres, vamos na nossa luta de escritoras e vamos conquistando espaço. A literatura chamada de gênero vem sendo reconhecida. É muito bom que nós, brasileiras, estejamos produzindo boa literatura de gênero. Li seu livro “Nove Tiros em Chef Lidu”. É excelente! Parabéns, amiga.

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